CONCLAT 25 ANOS Para o atual presidente da CUT, Artur Henrique, a Conclat é um importante momento da história da luta dos trabalhadores. “Foi ali que o movimento sindical conseguiu dar um salto de qualidade em busca de uma organização mais abrangente, mesmo com as divergências que ocorriam no seu interior, e que ficaram mais explícitas depois. Debater sobre salário, reforma agrária e liberdade sindical, entre outros temas, sob a ditadura militar, é uma prova do esforço de mobilização da classe trabalhadora.”
Um longo caminho de resistência – O golpe militar de 1964 empurrou para a prisão e clandestinidade milhares de dirigentes políticos, sindicais e estudantis, que ousavam lutar por liberdade e por um país melhor. Durante anos, os governos militares reprimiram de todas as formas possíveis – da censura ao extermínio – as tentativas de organização das classes trabalhadoras, mas isso não impediu que o movimento se mantivesse, buscando seus espaços de expressão e representação.
Naquele tempo, movimentos operários esparsos aconteciam aqui e ali, mostrando que nem todo o aparato jurídico-repressivo do Estado poderia deter a marcha do povo em busca de liberdade. Manifestações estudantis ocorriam mesmo com a UNE na ilegalidade; em 1968, greves de metalúrgicos de Osasco (SP) e Contagem (MG) insuflaram espíritos libertários, apesar de terem sido fortemente reprimidas. A conseqüência dos primeiros anos de resistência ao golpe foi a decretação do AI-5 (Ato Institucional nº5), que fechou ainda mais o regime, instaurou a censura prévia na imprensa e perseguiu com ainda maior vigor quem se opunha à ditadura. Muitos viram na luta armada a única forma de enfrentar o inimigo.
Os anos de 1970 assistiram à lenta retomada das lutas e das organizações populares. De um lado, o dito milagre econômico, que embalou o país no final dos anos 1960 e início da década seguinte, já se mostrava uma bomba relógio prestes a explodir em inflação e dívida externa. Para adiar a falência do modelo econômico, agravado pela crise do petróleo de 1974, o governo militar arrochava salários e manipulava índices de inflação, o que gerava ainda mais insatisfação e revolta entre os trabalhadores, que viam seus salários sendo corroídos mês a mês.
De outro lado, entidades populares e da sociedade civil, que lutavam por liberdades democráticas, começaram a sair às ruas para protestar contra a carestia e o custo de vida. Nas universidades, professores e estudantes se uniam para pedir liberdade. Em 1975, as mortes do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho aguçaram ainda mais a guerra surda que opunha população, de um lado, e o regime militar e seus lacaios, de outro. O povo, sem armas, estava em guerra contra um governo ilegítimo.
Entre 1978 e 1980, a partir das greves ocorridas no ABC paulista, começou a se esboçar o “novo sindicalismo”, combativo, de base, que contava com apoio da igreja progressista e de intelectuais e militantes de esquerda. Ao final da década, as lutas esparsas se mostravam insuficientes, era necessário um passo adiante na organização dos trabalhadores.
A Conclat – Havia alguns anos, sindicalistas do ABC, principalmente metalúrgicos, já discutiam formas de ampliar a organização dos trabalhadores e romper o isolamento que o regime tentava lhes impor. Foi nesse cenário que, em 1977, sindicalistas ligados ao PCB e MDB lançaram a proposta da realização de uma conferência de trabalhadores, em moldes parecidos como se organizavam os empresários, no Conclap (Congresso das Classes Produtoras). O pedido foi levado ao ditador-presidente Ernesto Geisel, que aceitou, mas condicionou a realização do evento à subordinação às confederações oficiais e proibiu que resultasse daquele encontro qualquer organização intersindical de caráter permanente.
Do início de 1978 a agosto de 1981, sindicalistas realizaram um intenso movimento para organizar a primeira experiência de encontro nacional dos trabalhadores, após mais de 15 anos de ditadura, discutiram uma extensa pauta, que abordava questões como salário e recessão econômica, reforma agrária e liberdade sindical e política.
Uma parte do movimento sindical atrelado às estruturas oficiais também participou da Conferência e a cada ponto de pauta era nítida a certeza de que havia várias posições conflitantes no âmbito do movimento. “Aquele foi o momento divisor de águas entre o sindicalismo combativo e os pelegos do movimento sindical”, afirma o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, José Lopes Feijóo.
De fato, a partir daquele Conclat surgiu a comissão pró-Central Única dos Trabalhadores, mas uma parte do movimento sindical se recusou a participar e acabou partindo para a fundação de outra central, bem mais palatável aos interesses dos empresários e governo.
Enquanto isso, mulheres e homens do campo e da cidade discutiam a criação da que viria a ser a maior central sindical do país, responsável por diversas conquistas da classe trabalhadora e peça fundamental na redemocratização do país. Dois anos após aquela Conclat, em 28 de agosto de 1983, era fundada a CUT.
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